Corpo de Água num Copo de Carne Humana

Clicar para Ouvir Preço: 8 euros

helenoheleno@hotmail.com

Índice

I. dar de mim para receber de ti
01. eufemismo
02. sintaxe dos humanos
03. plano de contingência
04. orgia literária
05. gesto a jeito
06. vileza em pânico
07. mais um a menos
08. borboleta
09. o encanto reaparece
10. vida feita em novelo

II as coisas que um feto escreve
11. aeriforme
12. torvelhinho
13. outrar-me
14. na Covilhã há um terraço
15. aracnídeo
16. alfonsim
17. pináculo
18. trança de carme
19. caderno de croquis
20. mantes
21. profissional da vida
22. adágio

III como faço, se dou mão parto o braço
23. pegada literal
24. ovogenia
25. privação
26. alalia
27. ideias às muralhas
28. ua
29. passos de aço
30. feiura hamlética
31. rúptil discórdia
32. o amor entardece
33. sou de todo o que era
34. ventos jónios

IV a pôr à prova e a endurecer a sensibilidade
35. miss vida
36. código da persuasão
37. fotograma
38. oráculo
39. sisudez brilhante
40. a vida é para ser comida com os dentes
41. doutoramento sonegado
42. o que debilita mais do que

V a plastificar os sentidos
43. estudos
44. geografismo
45. outubramente
46. suspensão

VI esperem por mim para nascer. eu vou já!
47. viva o pai natal
48. ping-pong de humor
49. desvelo
50. privilégio

VII não é um dedo nem um braço, mas o corpo todo!
51. alegoria
52. escola das palmeiras
53. metade do que sei

VIII Entrei aqui andrajoso e retiro-me virtuoso




I.    dar de mim para receber de ti


posto nesta água
solto-me do frio
lavo-me da mágoa
creço, mudo, crio.


1.        eufemismo

anda a chuva atrás do sol
a lua vem por arrasto
o que é rijo fica mole
e que é o raro fica vasto.

dia e noite beija-flores
par igual em equinócio
disfarçados de senhores
a fugir por um divórcio.

que macia indumentária
nos afasta da desgraça
proposta visionária
positivismo de raça.


2.            sintaxe dos humanos

corpos bonitos e frementes
cruzam as vistas delicados
dor no instinto e entrementes
meus espinhos complicados.

se não os olho fico anjo
anjinho tímido com auréola
o que vejo de pronto esbanjo
límpido, lindo, pronto em pérola.

todas as dores descobertas
marcadores de crescimento
os amores lindos alertas
que também servem de alimento.


3.        plano de contingência

acordei sem desejo
virei-me e adormeci
no cérebro um cortejo
como eu nunca previ.

transformo-me em relógio
rodo-o ao contrário
sono vira refúgio
e altera-me o horário.

almofadado, terno
sem poder descansar
há poemas dum inferno
a atacar pelo ar.

4.        orgia literária

à procura dum buraco
fico esparso e estival
sou vedado, oco e fraco
asas perras de cristal.

pregões com que me levanto
todos postos em cartaz
morninhas do meu encanto
berro alto: - vai-te e faz.

iniciar o dia atento
libertar-me do cortejo
se não produzo arrebento
nada crio com manejo.



5.        gesto a jeito

caio leve e torto voo
ando meio ciciante
ou parto ou então enjoo
num torpe ósculo de amante.

se demorar mais um pouco
parto os ossos do desejo
chego até a ficar rouco
alucino como um beijo.

de inspiração empedrada
empurro o ar muito perro
de expiração estrelada
sai o frio entra o ferro.


6.        vileza em pânico

mortos, os dias vão voando
os momentos passados doiram
crepitá-los de vez em quando
ensejos estranhos estoiram.

mais sossegado que perverso
menos obtuso que correcto
mio élfico, coro inverso
côncavo toureiro intelecto.

não me sinto mas obedeço
colo sílabas em palavras
existo, acordo e entristeço
em alvas salvas e macabras.

a persistência masoquista
combate pálpebras pesadas
um suporte pára-quedista
lençóis de folhas às ninhadas.

7.        mais um a menos

poema sem a dor
é sol que não aquece
fruto com pouco amor
que a minha vida tece.

tempo livre é poesia
que me espanta da prosa
mas sem ela eu teria
uma vida tortuosa.

toda a noite escrevia
cortes de sons a metro
ligado em ferrovia
um bilhete e um sequestro.




8.        borboleta

um toquezinho patológico
anda por mim arrelampado
um quinhão epistemológico
cai-me em cima civilizado.

apanhei-o por um instante
despi-o logo decifrado
alimento sempre constante
a digestão é o seu fado.



9.        o encanto reaparece

saborear a chegada
com o frio nas costas
de torto viro espada
com os dedos em postas.

isto não dura muito
e por falta de jeito
ponho o sangue em circuito
ponho o prazer ao peito.

e escrevo a toda a hora
para provar que atento
não passo o tempo fora
mas dentro a cem por cento.



10.              vida feita em novelo

teste budista ultrapassado
pressão arterial mais lassa
passou, génio dominado
momento findo sem desgraça.

e no topo do meu cosseno
estou ao nível do horizonte
derretido feito veneno
sou assassino, ando a monte.

ao cair neste engodo rodo
em crenças de camaleão
fico a pensar de outro modo
morro, isso não, isso não.




II.         As coisas que um feto escreve


estou num prato
duro, ruim
sola sapato
assim assim.






11.              aeriforme

todo o dia enervado
sem saber que fazer
alterar o meu estado
sentir algum prazer.

chegou de madrugada
pôs-me o corpo em folia
no fim de outra jornada
noite em melancolia.

quero mudar a lógica
de viver desregrado
caminhar com mais prática
andar mais animado.



12.              torvelhinho

sobe a vida alvejada
pulhamente triste ia
lógica oca entornada
pinga o sol pia o dia.

venta morno e espirro
em defesa do ataque
corpo arde num pavio
em resposta, em desmarque.

momento de relaxe
tanta coisa a erguer
metido em avalanche
vós refresco, eu lazer.



Sem comentários:

Publicar um comentário