sexta-feira, 3 de maio de 2019

Comenos XXIV - Musas com Sucedâneo - Comenos Helenísticos Heleno Pinhal 2003


Donde vens varonia manuseada pela necessidade de uma donzela deleitosa e com donaire? E também o dela, aquele querer feminil assasmente fiducial de um amante forte, afetuoso e não alcoólico?
É a loucura segundo Erasmo que assim explica a opressão física e moral que me visita assiduamente e até hoje só conjeturei a sua existência. Foi a loucura, enuncia o filósofo, que compadecida com a dificuldade de Júpiter em controlar a intemperança masculina lhe deu um conselho digno dela própria, a mulher. E Júpiter aceitou. Desde então, essas amantes sensitivas procuram, e com direito, um resguardo másculo, alguém para amar, o que não é tão aceitável assim são as condições que elas pretendem para acasalar.
Espalham a sua presença com a mão na gravata do Adão incrédulo, mas não fazem força, é tudo tão suave, tão subtil, que o iludido ignora o sufoco que sente. Mais tarde, repara nos danos causados na lança de liberdade. Elas partem-na. Dividem tudo, em partes miudinhas, e nem provam para conhecer o seu valor. Partem-na tão subtilmente que parece que sempre esteva partida. Partem-na quando saem para jantar, dançar ou amar. Quebram aquilo de tal maneira, de mãozinha dada com beijinhos evidentes e sorrisos comprometedores, que parece que os desejos másculos de espaço aberto nunca passaram de borbulhas torpes e gordurosas de uma adolescência passada.
Depois, está limpo! A vida continua. O homem, coitado, quando nas noites de desentendimento acorda só no mundo másculo recorre à prostituição, porque aí dele que mantenha contactos físicos ou visuais com as suas antigas megeras.
Tudo serve para apregoarem ao mundo a sua aquisição: “se é varão, manda ele e ela não, se é varela, ora manda ele ora manda ela, se é varunca manda ela e ele nunca.”
Recordo trocas corporais que tive e se em algumas delas o encanto predomina outras há em que se mistura um sadismo atroz. São pernas para lá, pernas para cá com uma medonha necessidade de profanar o outro. O braço mete-se ali, o pescoço acolá e de respiração acelerada falta o fôlego, o chão, a presença.
Os corpos rolam de um lado para o outro. Tudo estorva, tudo falta. Nos olhos revirados vê-se um desejo de acabar com aquele sufoco de prazer, onde ambos correm para a meta da perfeição dos sentidos.
Soltam-se frases. Umas pela pele, outras pelos olhos exortam, um ao outro, obscenidades tentando transmitir a sua paixão.
E nesta necessidade humana o casal delicia-se e envenena-se.
Ouvem-se, por vezes, ensaios de solfejos com vozes femininas e violinos afinados a repreender a sujeição a homens grosseiros e marxistas. Perdão digo machistas.
Pois é, o certo é que vejo homens a lavar a louça e poucas mulheres a mudar pneus. Vejo homens a tomar conta das suas crias, sem cabeleireiro nem manicura, mas não encontro incenso feminino nas casas de pregos, rádios e pincéis.
O som dos violinos permanece, desta vez a defender os direitos feminis e a condenar convénios machistas, mas o que tenciono ajustar com as donzelas, não é o seu pensamento, finalmente fora da cozinha, mas sim o seu toque subtil, sexual por certo, que parte a lança de qualquer conde apaixonado. Não a lança lasciva, que essa lá vai funcionando em corpos desleixados e partes por depilar, mas a outra, a outra que acelera o coração dos acordados quando veem uma face bonita dentro dum corpo inteligente.
Oh ciúme. Senhor dos amatórios conservadores. Aparta do barão e da sua baronesa os voluptuários com todos os seus gozos morais e carnais.
Com a astúcia mal delineada criam deveres, regras e condutas, no entanto, com um leve sorriso, mesclado com um olhar inquisidor, na rua, bar ou chalé soltam braços masculinos sem licença da vontade própria.
Sei porque escrevo sobre esta visão, ciente da sua singular solução. Fico por aqui sem me importar porque o jogo está prestes a começar.

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