sexta-feira, 3 de maio de 2019

Comenos XVIII - Única vida com prazer - Comenos Helenísticos Heleno Pinhal 2003


Estranho o engodo dos proselitistas metafísicos, que podendo escolher livremente o paraíso que apregoam seduzem os seus neófitos com promessas de existências encantadas, mas sem nenhum interesse.
Não percebo tal contradição. Existem tantos locais agradáveis, neste planeta enternecedor, e estão desertos de todo sémen humano. Mares, terras, cascatas, paraísos divinos oferecidos em panfletos vulgares, mas onde vejo milhões de carcaças humanas é nas acumulações desordenadas de edifícios, onde se mostram altares e escondem prostíbulos, recolhendo diariamente necessidades e dependências bem humanas.
Para uns nasceremos sem discernimento, para outros espera-nos a convivência perpétua de um deus sentado ao nosso lado, a olhar a esfera terrestre e a ouvir uma música lenta entoada analogicamente numa total opulência castradora.
Quero os meus dias livres de doutrinas enganosas com castigos posteriores. Nunca desejei sentar-me, um minuto que seja, no lado destro de um imperador obcecado, a ver sorrisos angélicos mixados com sons celestiais monocórdicos, e até hoje não encontrei eruditos nem rurais que proclamem tal propósito.
E porque não rasgar os receios da morte e com um pouco de realismo desejar uma vida com mais adorno? O que importa se ao morrer vivemos outra vez ou não? Ao homem sempre foi negada essa realidade. Convém é nunca deixar o nosso espólio contaminado com odores de tristes vidas refreadas.
Os hábitos, os desejos e as paixões são o deleite dos humanos. São o vinho do espírito. Um vinho de taberna que no cálice do prior expele o seu cheiro nos altares da igreja, onde tudo acaba por ser misturado com a tibieza de carácter.
Pouco a pouco, os presbíteros criam desfechos de vida mais sagazes, para alegrar os estultos, conservá-los agarrados a suposições mordazes e narcóticas. Para arrostarem a gadanha, nas mórbidas mãos da companhia indesejada, e encararem de frente aquele momento que antecede a queda do pano, neste palco teatral que nunca devia de findar.
Recuso-me a cair nesta chalaça. Não duvido que os receios, em toda a morte lenta, não se devem ao fim desta vida de poeta, mas há descrença da existência de outra pela certa.
E se não há mais nada? E se toda a minha contenção, em beber aquele vinho, não for recompensada?
Eu arisco arrisco tudo e vivo zelosamente, depois se vier outra existência, preta ou branca, tanto me faz, mas em cantigas de pássaros bem-falantes é que não caio, nem mesmo por distração.

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