sexta-feira, 3 de maio de 2019

Comenos IXX - Corpo Humano - Comenos Helenísticos Heleno Pinhal 2003


Num dia de sol, saio à rua sem vontade. Um zéfiro ar tocava todo o meu princípio imaterial e ao ver pessoas preocupadas com a parte singelas da vida, acordei a intriga para saber o porquê desta faculdade de sentir.
Estou só no café, a ouvir a chuva que cai e a deleitar-me com a estrelinha que tenho em contraponto com a água que bate e escorrega pelas descidas íngremes da cidade entristecida.
Algo surge e se for nefasto o corpo humano cria um invólucro protetor, uma crosta resistente disfarçada pelo corpo em qualquer lugar, de modo a nele permanecer sem nunca o prejudicar. É uma questão biológica e muito interessante de analisar.
Tenho algumas dessas cápsulas, não físicas, porque sou muito novo e cuido de mim, mas das outras mais resistentes, invisíveis para os olhos e sentidos dos outros. Invólucros emocionais que guardo na prateleira que arquitetei no meu peito. Quando o tempo sobeja, olho o éter à volta e escolho com sensatez qual a emoção a despertar. Desfruto de todas e quando chega o desapego enrolo-as em papel de veludo e coloco-as na estante. Por vezes incomodam, mas se for em demasia lanço-os na fornalha que existe na Serra da Estrela, no sanatório das trezentas e sessenta e seis janelas, que tem tudo menos insanidade.
Longe do arrependimento assumo todas as minhas ações, apesar de não ter aquela consciência generalizada que se fundamenta em princípios étnicos do local onde nascemos, esquecendo que o mundo, apesar de ser redondo, pode-se abrir ficando mais acessível à compreensão.
Não gosto do globo, ele mostra apenas uma parte do mundo. Um mundo imenso, mas pequeno para as minhas ambições.
Não pretendo ser astronauta, mas questiono se em alguma dos milhares de estrelas que vejo, não há seres que amam, contemplam e choram como nós. Que sentem o cheiro do suor, esperma e sangue. Que sorriem ao ver o nada que baçamente se intromete entre duas pessoas que se querem.
Tudo são sonhos para além da realidade. Não procuro nos astros o que aqui mesmo está oferecido sem cansaço nem gastos de aquisição.
Vou parar. Acho que basta, mas as ideias continuam impulsionadas pela inspiração de escrever. Não consigo fechar a gaveta das prosas que sem querer me afloram no espírito, objetivando a tua aprovação ou comentário.
Também escrevo porque me dá prazer e liberta. São ideias registadas ficam consistentes na forma material. E ao saber que se leem, que não são jogadas fora, escrevo-as e releio-as como se os meus olhos fossem os teus e ligassem princípios de vida, sentindo o que o outro sente.

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