terça-feira, 30 de abril de 2019

Comenos IV - Aforismo I: A casa - Comenos Helenísticos Heleno Pinhal 2003


Num bosque de fábulas e mitologias apareceu um dia um mágico, que ao toque singelo do seu caduceu ergueu um solar com terraços ladrilhados e paisagísticos vitrais.
À noitinha, as estrelas entravam pelas janelas sobrepondo-se ao veludo daqueles cortinados exuberantes.
Esta mansão, com todo o seu potencial, compreendia a importância do dia e da noite e tudo indicava um futuro próspero.
Atraídos pela ternura da sua idade, apareceram amigos, conhecidos e interessados que pouco a pouco plantaram flores, trepadeiras e enterraram muitos bolbos, uns sempre mais profundos que outros.
De início a casa não encontrou necessidade de tanta escavação, mas permitiu estes enfeites ao ouvir os anunciantes convictos das suas importantes propriedades terapêuticas. 
Não durou muito tempo para a casa começar a perder a noção do dia e da noite. A confusão acomodou-se, com direitos e sem deveres, nos melhores aposentos de tal mansão.
Havia tantas ervas! Grandes, pequenas, umas emprestadas outras compradas, a pronto ou a crédito, que era impossível admirar as suas cores e compreender a relação entre os seus cheiros. Mas elas lá iam crescendo, alimentando-se constantemente umas das outras.
A mansão, de início, não reparou no vigor de tais ervas. Riu-se quando plantaram a erva da humildade e da sujeição.
A semente da sinceridade parecia vigorosa, mas a casa nunca viu a sua beleza, no meio daquele ar denso com tanta folhagem eriçada. Queria olhá-la e pressentir o seu cheiro. Não faz sentido viver sem ela! Mas era tarde. O seu pensar despertou a indolência e já não via com clareza.
Antes de adormecer reparou que devia de ter cuidado com todas as ofertas de ervas enaltecidas, em especial quando a tristeza no olhar dos homens não coincide com a entoação eufórica da sua apregoação.
O sol estava de partida e, naturalmente, surgiu a submissão, vaporizada com um pouco de austeridade. Foi aí que compreendeu que as casas nunca perceberam nada de jardinagem.
Fechou as janelas, correu os cortinados e deixou-se adormecer, como nunca foi seu costume, sobre ela própria e desabou.

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