terça-feira, 30 de abril de 2019

Comenos - Desinteresse temporal - Comenos Helenísticos Heleno Pinhal 2003


Ontem gostei ou se calhar até amei. Gostava e não queria gostar, mas hoje, ao acordar, desapareceu esse bonito nó que antes quis ver um pouco laço. Desejei ter quatro ouvidos ou então duas cabeças, a outra com mais juízo. Recorri a esta crendice porque algo insólito se passou.
Os sentimentos enroscaram-se de tal maneira nos meus pensamentos que desisti de brotar da cama, sem motivo para tirar o pijama. Era como se o meu corpo não me quisesse deslaçado como estava.
Uma suave dor, sentada no meu peito, riu com veemência da minha ingenuidade de sentir. Mas riu a sério! E eu, de olhos esbugalhados, olhava para tudo enternecido, sentia a dor e ouvia o seu riso e sem perguntar nada, ria, via e sentia. E depois ainda dizia: Não quero saber do passado tão pouco do tempo por vir. Prefiro descer a calçada com a chuva por dentro e por fora, prefiro olhar a Serra entre os telhados e respirar bem fundo, prefiro levar com o sol nas trombas e rejeitá-lo como se fosse uma panaceia, prefiro apertar os sapatos onde quer que esteja e deitar-me por vezes numa cama muito bem-feita.
O mau estar permanecia. Então, sentei-me bem direitinho e disse: - Como é? Deitas-te a gostar e a não querer gostar e depois acordas frívolo e triste por o teu desejo se concretizar?
A suave dor sentou-se a olhar para mim, à espera que a alimente, que não a impeça de ser ela. Eu digo-lhe que continue, que desloque a minha ignávia desoladora e a lance na fornalha das más intenções.
Ufano-me por a ver sentada e ela, deliberadamente, vira a face e graceja ainda mais, pedindo que a conquiste belicosamente.
Envergonhado, por estas pueris emoções, com o levantar de quem tem o que deseja, abro a janela licenciosamente e olho as horas de uma maneira muito indiferente.

Sem comentários:

Publicar um comentário