terça-feira, 30 de abril de 2019

Comenos - Seguir o dia direitinho - Comenos Helenísticos Heleno Pinhal 2003


Despertei com a obrigação a alentar-me, como se o presente desejo fosse cumprir com todos os pedidos que esta sociedade me faz. Uma lista enorme de marcações pontuais que posso quase sempre desmarcar.
Hoje, o salto do meu leito foi feito com um estranho desejo de seguir o dia direitinho. Não pensei nos normais hábitos que mantinha na certeza de desassombrarem a minha vida, seduzido por coisas boas, seduzido por pessoas e reduzido por amores, como é normal no ser humano.
Empurrei tudo para o vácuo mental que não sei onde fica, apesar de ser meu. Decidi, depois, acertar o meu relógio ao compasso dos vizinhos ou dos trabalhadores que ruidosamente arrebentam a minha rua para, tal como nas outras ruas vizinhas, colocarem a passadeira de granito que está em todo o lado no centro histórico da Covilhã.
Escolho entre moer no meu dia de ontem ou aprender com o de hoje. Organizo este dia, que pretendo, como já disse, que seja um dia ao compasso dos trabalhadores da rua do fundo. Eles trabalham tanto que fico sem jeito quando olho para eles debaixo do sol da Beira Interior. Das oito da manhã às sete da noite metem o compressor à frente da minha varanda do primeiro andar e lá permanece, até às doze, a dar força de gigantes àqueles nobres trabalhadores que me fazem sentir pouco suado quando passo por eles ofegante pelas subidas que nunca descansam. Depois, da uma às sete, começa a mesma orquestra. Uma melodia que me mete a rua num primor. Durante dez horas por dia, o compressor faz o fundo e o pneumático marca o compasso. Que afinação! Umas vezes lá ao fundo, outras mais em cima, os trabalhadores nem se sentem, apesar de os gostar de ouvir. Simplificam tanto a vida deles que me complicam a minha.
Se o desleixo não me enganar, ao fim do dia vou ter um gosto especial.

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