sábado, 12 de janeiro de 2019

Páscoa Ciente– Incompleto Organismo de Heleno Pinhal

Há dias de Páscoa em que acordo assim, seco com os dias passados, moído com o empurrar das gentes e parado a olhar o tecto por cima da cama onde me aperto. 
Olho à minha volta e só vejo solidão com os pregos espetados no leito suado pelas toxinas que liberto – e ainda bem – deste corpo que me empurra logo de seguida para as listas diárias.
Neste dia, na Beira-Mar de Aveiro, os mais crentes colocam flores nas ruas para que a orquestra passe com a procissão ao seu lado e ouço, como na primária, a melodia que me faz trautear de memória. – “Tocam os sinos na torre da igreja, há rosmaninho e alecrim pelo chão.” – Viro-me e continuo com o autor gordo na memória. – “Na nossa terra que deus a proteja, vai passando a procissão”.
E passa este séquito de crentes lá fora. Dentro de mim, outro cortejo se prepara para louvar este dia.
Gostava que os dias passassem com menos esforço e mais alongados. Carnaval, páscoa, feriado municipal, o meu aniversário e dia de natal. Todos, não exatamente por esta ordem, alimentam os portugueses para que se olvidem do peso que cada um tem, nem todos, porque há quem jogue a sua carga para as costas dos outros, que de rastos a carregam ao sabor do amor. 
Amor! O que és? O que fazes ao homem que colado à mulher procura ainda outras coisas?
Ninguém se completa. Ninguém ovaciona a vida para deixar de ser sentida.
Nestes dias primaveris, onde a hora adianta por uns meses e que coincidem com a lua de luz redonda, apetece-me ficar a olhar gandaiamente as historietas da natureza humana que andam enroladas, com muito engenho, nas pronúncias regionais, nos repuxos das fontes modernas, no néctar dos frutos mais suculentos, nas frases ditas com palrarias válidas, nos mimos, nas jigajogas, em fraques escuros, nas hortaliças velhas, em prognósticos inalienáveis e nas conjecturas unânimes de bonifrates autónomos.
Para me sentir um pouco humano, penso ainda em todas as bonecas abandonadas, atacadores desapertados, rolhas sem garrafa, piriscas apagadas, solas a barulhar no chão com as tijoleiras partidas e nos avisos das estações de comboios. Em comida é que não penso muito.
Depois de andar assim, às voltas com o sangue, apetece-me continuar a respirar devagar, descansado por idealizar tudo no local correto. O café está tomado, a menina já o vem levantar. O segurança sobe direitinho a escada rolante e o miúdo que agora aqui entra não larga o gelado. Eu também não largo esta mania de sair nos dias de festa cedo e não ligar às moças que passam voluptuosamente e se colam a mim, no intento de desviar o meu olhar para as lojas de guloseimas. 
O que enfio pela compreensão adentro, só eu consigo encontrar!
Aveiro, Il caffe di Roma, Forum, 2005, Abril, dia de Páscoa, 12:56:05 h,

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