sábado, 12 de janeiro de 2019

Função cosseno de período bem pequeno – Incompleto Organismo de Heleno Pinhal


Deverá algures, perdido por falta de cuidado, um exemplo bem contado que exprima a neurologia deste estado. A cabeça quieta, as mãos em movimentos dispares e as pernas sobrepostas.
Só, fico para dentro com tendência para fazer de mim o centro do desconhecido. Vulgarmente não escrevo, quando me sinto tão completo, mas a minha hombridade diz que não é correto. Então como se vai saber o que se passa num homem que sentado no café analisa aquilo que é? Cheio de vida, cheio de desejo e de funções inconstantes.
Vai saltar-vos a tampa com esta história que ainda me ataranta.
- A minha vida é uma função constante.
- Y igual a três?
- Entre três e quatro!
- Pois a minha é um cosseno e de período bem pequeno.
Está tudo definido, mas nem tudo é permitido. Vejamos se me explico para melhor entenderem as pessoas deste tipo. Parei neste diálogo, cheiinho como estava, no topo do meu cosseno e ouvi um conhecido afirmar num tom frívolo:
- A minha vida é uma função constante!
Não queria aquela lucidez, em mim ressacado como estava, o que fiz foi reparar no seu olhar que precisava de acordar e lembrei-me por acaso: “ O homem tem o dever de distinguir-se dos outros.” – Iluminismo – “ Criar o seu próprio estilo.” – século XVIII.
Se as contas forem bem feitas verão que as coisas não andam assim tão direitas. Trezentos anos para chegar e quando misturo isto com ideias transpostas lançam-me com a beleza interior que a afirmam ser bastante superior.
E quem diz que é verdade? Quem acredita que uma casa mal pintada está por dentro bem arrumada? Querem dizer-me que os olhos tristes, com desagrado em olhar, têm dentro uma grande capacidade de amar? E o amor onde está se não o vejo nos seus rostos? Estará numa perna, numa virilha ou em qualquer sítio bem tapado? Tapado por quem? Pelo dono desgraçado? Quem tapa uma rosa, quem disfarça um sorriso ou quem esconde o seu amor? Para mim é quem não ama.
Quem não aquece em seu redor, não merece o meu calor.
22 de Maio de 2004, 23:10:43 h, Gato Preto, Aveiro.

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