sábado, 12 de janeiro de 2019

Momentos Atulhados – Incompleto Organismo de Heleno Pinhal


Há pouco, encontrava-me num momento que já me estava a fartar. Um minuto daqui e outro dali projectavam dentro de mim lembranças antigas de como antes ansiava o dia todo encontrar três amigos do bugalho e juntos sujarmos os joelhos ainda em formação. Agachado em frente a três buracos no solo duro via o mundo como se a felicidade consistisse em ganhar um bolso cheio de bugalhos. Havia dias que nem dormia com um pensar de insónia igual aos dos grandes consumidores de barbitúricos. Mais tarde comecei a querer outras coisas, coisas mais reais e de maior interesse.
Estava sentado, a tentar desfrutar do que fazia e no entanto estava irritado sem saber o que queria. Foi aí que me deu um vaipe e percebi, sem fazer caso disso, que aquilo já estava sem vida e eu não queria reparar nisso. Lembrei-me dos berlindes, das roupas e sapatilhas que outrora me levantavam num impulso de amante. Pensei nos computadores, aparelhos de som e profundos amores que alentaram a minha vida. Crescem cá dentro e vão sem a minha autorização.
Pois agora é diferente, assobio se me apetece, contemplo se me agrada e ponho o lixo todos os dias. Não quero ficar colado a gostos que já não saboreio e tão pouco me importa o paladar dos outros. Ninguém censura um jogador de bugalho de cem centímetros nem critica um velho incapaz por usar bengala. Ninguém o faz não e se o fizer é porque continua sentado no mesmo banco que eu também já estive.
25 de Maio de 2004, Covilhã, “Leões da Floresta”, 17:03 horas


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