quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Número também leva acento – Incompleto Organismo de Heleno Pinhal


Há escritores que nos fazem mal, quando aproveitamos o tempo perdido nas filas de atendimento público – por sarcasmo, os panaceiros não têm remédio para este desgosto de funcionário – a ler livros que fazem soltar risos escondidos do tédio das outras partes que estão na sala. Das senhoras, principalmente das senhoras!
- Então o certificado não vem?
Privado, estava escrito em arial por cima da porta que o Júlio jurava que conduzia à sala das pessoas escondidas do não fazer nada.
A melhor empregada daquela secção saíra em busca da assinatura do superior de serviço que não estava a tomar café. Exímia, esta funcionária de cabelos lisos e beleza sem toilet a preencher-lhe a cara toda, faz o trabalho de três.
Num dia abafado pelo dinheiro que escorria das mãos dos estudantes, que como velhos resignados pela vida avassalada esquecem o ensino “progressivamente gratuito a todos os níveis” do septuagésimo quarto artigo da Constituição da República Portuguesa e o saldam nas universidades. Públicas, mais as públicas!
O Júlio reparara nessa jovem sentada de sorriso suave. Por detrás dos certificados de competência, passados aos estudantes que por ali se demoram entre cinco a dez escorregados anos, essa funcionária dá mostras de honrar a sua formação. E não é da novidade, que engana todo o trabalhador descuidado, pois há quatro anos que o Júlio não conhece este serviço sem ela. Sem ela nem sem o outro que sempre a acompanha como a sombra de um sapato lançado de propósito – quase que lhe acerto – por um miúdo pertinaz numa tarde de sol a pique.
- Não leve a mal, mas este exame está cheio de erros!
O professor olhava o Júlio e o Júlio temia que o professor se enfurecesse, que abrisse a sua boca de estrangeiro mal inserido e o engolisse como uma tocha nas goelas de um malabarista.
O mestre inglês sorriu com argúcia e, talvez por já ter duas filhas portuguesas, pediu ao Júlio que marcasse todos os erros (treze) entre eles “número”. Número é uma palavra esdrúxula e por isso leva acento como Júlio, selvático, enigmático e irónico; inóspito, bélico e platónico ou também apático, angélico e um pouco antagónico.
- Veja lá se dá isto a alguém português para corrigir que é uma vergonha para esta universidade. Então não vê que todas elas levam assento na terceira sílaba (cá está outra) a contar do fim? Já agora numeração só leva um til, ficou grave como o latido de um cão lançado contra a lógica da programação.

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