segunda-feira, 26 de novembro de 2018

XX. Análise Comportamental Aplicada - Covilhã Viperina


Os pássaros voam ao som de qualquer espingarda, os gatos soltam sons estridentes ao possuir a sua gatinha e nós também: saltamos da cama, lavamos os dentes e batemos a porta muito contentes.
Princípios condutuais vulgares em cada um. São hábitos que fazem rolar uns antes de saltar, outros saltam antes de amar e lavam os dentes a correr tanto que ficam com os lábios todos em branco.

Na análise do meu comportamento examino com atenção parte por parte e aplico os seus resultados. Descubro com clareza o comportamento que me desagrada e avalio o seu atual nível. Três ou quatro vezes ao dia, dez, vinte ou trinta. Planeio sempre uma intervenção específica com os antecedentes e consequentes detetados na análise. Ofereço um minuto adicional por cada problema resolvido.

Anoto num registo todos os resultados e modifico o plano, modifico tantas vezes quantas as necessárias para compreender e modificar o meu comportamento.

O fogo só arde com real calor se qualquer das energias se colar a ele como se cola a gordura das nossas mãos ao limpar qualquer vidro embaciado. E onde está esse combustível? Como foi descoberto? Quem o observou e registou? Essa energia prejudica? E os resíduos, os resíduos que sempre saem de qualquer travagem brusca serão eles que substituem depois os tóxicos tão bem estudados?

Contesto uma conduta enfadonha e encarniço uma outra mais bem esclarecida. Elogios azotados, princípios de pasmas, modelamentos por contágio e práticas de envergonhar. Podemos melhorar o proceder aquelas nuvens maçadoras que nos encobrem os sentidos do rosto. O elogio é aplicado a seguir à conduta e após o esclarecimento dos detalhes a reforçar, tudo isto se faz de uma forma informal. Primeiro o dever, depois o prazer.

Princípios e conveniências saltam a ajudar. Agarro nas atividades preferidas: sair numa noite pesada, colar os lábios numa bica quente, soltar um sorriso vezes sem conta a uma pessoa querida e parar, parar por dentro e por fora nas varandas de uma vida.

As vicissitudes humanas açulam os maus hábitos, costumes condenados por nós próprios que enrodilham lestamente o pousar firme de qualquer benfeitor destemido. Empacotado neste corpo quente e sempre com fome separo o meu gosto do azedo.

Agrada-me sentir o desgaste das pedras, dos milhares de degraus que pululam esta cidade da Covilhã. Até no parapeito da minha Várzea Turbulenta encontro covas pantanosas saudadas por gentes saqueadoras de encontros. Encontro amigos, lacrimejo quando chove e corro ao descer as vielas com a gravidade a meu lado, a puxar por mim de tal forma que pareço um gato velho a travar num ladrilho engordurado.
 Os costumes condenados pilham a minha atenção. Obrigações de todos os dias: sentado disperso os afazeres então o relógio saqueia-me do idílio. Ora fico com a garganta seca por não me poder deixar estar ou apetece-me desistir, desistir de cumprir sem cessar o percorrer das normas vigentes nesta cúpula social que me intriga.

Rascunho isto depois de fazer aquilo. Cumpro com os meus deveres, deveres que escolhi a querer, o que agora colho é o líquido do esmagar dos frutos da liberdade passageira. Primeiro o dever, depois o prazer.

No modelamento por contágio reforça-se o progresso em vez de se esperar a perfeição. Cada pequeno avanço, seja um simples tatear maçador ou um contestar pertinaz, ao ser detetado em vez de o murchar encarniço-o com a ajuda da intriga. No plano de tarefas decompõem-se travessias severas em percursos moderados.

Com persistência, paciência, precisão e rapidez alcanço o sucesso de viver, é que agora já nunca mais quero morrer, nem sequer faz sofrer ver um lápis assim a escrever, é que não há mesmo nada a fazer!

Tiro a toalha suja e coloco outra mais lavada. Olha, até chego a falar alto comigo mesmo sem me mortificar. Acordo com ideias de corromper, vem o dia enlaçado nos seus sons e imagens e perco os sentidos, quer dizer eu continuo a sentir, mas é diferente, é mesmo outro apetrecho de mim sei lá. Então volto a acordar, às vezes até na mesma posição penso as mesmas coisas, parece que as paredes têm sinais específicos que uniformizam o meu passado. Ainda bem que o futuro não o decifro assim fica tudo em aberto e derreto o gelo que quero no calor de todos os meus dias. Por vezes o gelo não chega e corrijo de pronto essa falta. Tão rápido quanto possível corro para o congelador como se o meu irmão fosse picado por uma abelha mal enxotada e olhem que eu sei como ele fica com essas picadas. Se errar na quantidade é meu dever corrigir antes de inflamar. Apresento as regras e as consequências em quebrá-las, os erros são admitidos de forma digna e decente. Com letreiros luminosos recordo hábitos necessários. Observo o meu tempo livre momentos sem horizonte que se trocam sem cessar, são tão fotogénicas essas hormonas insatisfeitas.

Caem esfinges de cabeça pelos trovões provocados pelas minhas engrenagens por olear e oleio-as na certeza de conseguir evitar tal desfecho acostumado. Indagação, inquéritos e obstáculos. Com o meu dedo indicador virado para o meu querer tiro à força tudo o que me faz crescer.

As condutas indesejadas aparecem à socapa quase sempre desejadas. O reforço negativo é gerado por uma qualquer situação aversiva. Certos comportamentos só são eliminados quando algo angustiante acontece: falta de dinheiro, saúde ou paciência. A ligação é feita de imediato.

Há um espinho qualquer que perturba o meu andar arranco-o e o incómodo desaparece.





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