quinta-feira, 27 de setembro de 2018

III. Garraiada eslovena - Covilhã Viperina

Agitei o meu discernimento até à rouquidão quando o esloveno expôs a sua bravura aderido à terra batida da arena. Alguma coisa não estava a condizer!

O dia ameaçava quente para Outono. Oito da manhã e já os Duros aferrados estavam em sintonia. Vinte e poucos, cinco desses poucos eram mulheres.

O autocarro rola pelas vertentes humanizadas da Beira Interior, rola rodeado de montes de sol, montes de alegria, montes de ar puro, montes de montes e montes de boa companhia. Eu quero é montes, pensava eu com tanta força, que por vezes saía tudo pela boca em direcção aos sobreiros, aos riachos, às ovelhas que já comiam erva, marcos das casas e só parava no horizonte irregular típico.

Chegámos com vontade, vontade de dar à Idanha-a-Nova uma fina simpatia, é que eles esperam por nós durante todo o ano, foi esta missiva que lá me levou. Então não é que eles estavam mesmo à nossa espera com cafés para Totoloto, castanhas assadas e sandes de queijo da serra a um euro. Tinham ares de quem nos quer bem e vontade de nos ver.

Os touros apareceram, temerários e corsários lançaram-se com afinco, era tudo à mistura para nos fazermos entender. Um esloveno, bom rapaz, parecia decidido a mostrar às massas lusas o seu desempenho destemido mas depois recuava ao sabor do seu temor. A pega começou aí. Era um apoiar desgarrado para o ajudar a enfrentar o seu medo. E ele enfrentou - run, run, run, go, go, go - até as vacas percebiam inglês.

Anoiteceu, como em todas as vilas pequenas do mundo. As duas horas que se seguiram tremeram as rodas do veículo apinhado e comum a determinados passageiros. Agora eram Duros, Semi-duros e Duros de Segunda, parecia uma tribuna ambulante com moçoilas na varanda e o Baco à entrada.

Sempre à desgarrada o meu coração solevava num estampido redondo, sapatadas, coelheiras e ferraduras a caírem por todo o lado. De qualquer assento acordadosaía um urro bem mandado - viva os Duros - porque os Duros, não só são desagradáveis ao ouvido como têm um duro destino, correspondem precisamente a todas as situações para defesa da sua cavalaria andante.

O jantar era o mesmo prato mas noutros pratos descartáveis para evitar danos irreversíveis para a humanidade. A pé subi os declives até à saca do pão no segundo andar, comi, espaireci, espalhei perfume no cachecol e saí a correr para tornar mais longo o meu viver. Viver para ver e escrever, o que quer que seja, até pode ser isto. Uma manápula ofegante é o que és, um pobre coitado com mais outro vício!

2003, Novembro, 09, 00:01, Covilhã




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