quinta-feira, 27 de setembro de 2018

II. Bom senso avariado - Covilhã Viperina


Chuva, muita chuva neste sábado de natal em Portugal. Descia a rua com o guarda-chuva bem aberto e a água colava-se aos meus pés depois de abandonada pelas nuvens. As gotas molhavam o meu corpo e no meio de outras pessoas molhadas encontrei uma seca. Foi aí que o meu dia começou.

- Bom dia de chuva senhor Não Interessa o Nome.

- Bom dia! Respondeu ele a sorrir.

- Que rico fim-de-semana?

- Está bom! Retribuiu com um sorriso correto.

- Não está nada! Frio, chuva e falta de luz. Está bom é para fazer meninos numa divisão bem acalentada.

Isto foi tão rápido que nem sei se ele disse algo. Continuei:

- Tenha cuidado! Tenha cuidado!

- Oh! A minha mulher já está avariada. Agora, é à vontade.

Só me consegui rir, enquanto ajeitava o guarda-chuva escorrido. Despedi-me e continuei a descer as ruas asseadas do Bairro Alto da Covilhã. Estão tão bonitas todas arranjadas como o adro de uma antiga aldeia muito católica. As vielas calcetadas têm agora uma passadeira de pedra a imitar aquelas que se colocam nas escadas. Foi nessa faixa de granito, que pisava após este diálogo, que ri. Ri com vontade deste bom senso avariado, mas parei ao fim de trinta segundos. Não por qualquer questão moral, porque isso já não me faz mal, mas porque desejei anotar esta anedota real e se continuasse a galhofar escorria todo o seu conteúdo antes de a poder registar. Ora, como tapei esse deleite há pouco, na passadeira de granito da viela, bebo agora o restante enquanto escrevo.

O que mais me intriga é que eu nunca diria aquilo, assim daquela forma, e tão pouco acho piada, aqui agora sentado, mas que ri de vontade isso foi verdade e tenho um desejo tão grande de perceber o porquê desse gracejar que se não o fizer murcho ainda mais que este dia escuro.

Ri pela pessoa que o disse, pela baixeza da conversa e também ri pela sua realidade. Então se o homem já tem dois filhos grandes, do tamanho dos problemas que lhe dão, já tem certa idade e quer é ganhar uns euros para se aguentar, não será boa a notícia de estar descansado deste trauma natalício que incomoda os homens ativos nesta época de frio, chuva, vento e muita neve em certos sítios.

Foi uma lufada do sol este bom senso avariado. Senti o dia a borbulhar e lancei-me a ele sem pressa e muito mais preparado.

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