sábado, 11 de maio de 2019

O século - farolas heleno pinhal


O século estava velho e resolveu reunir toda a sua descendência.
Ia ser uma grande festa. Convidaria os anos e os meses. Estes por sua vez convidavam as semanas e as horas que andam sempre metidas nos dias. Os minutos e os segundos, sempre cravados no relógio também foram convidados, porque esses afastados descendentes da imensidão dum século são tão importantes que frequentemente se perdem vidas inteiras dentro deles.
A emoção começou a fervilhar, por detrás do século, já velho, mas de olhos a brilhar.

Pensou, voltou a pensar e lá arranjou uma forma estranha de todos juntar.

Década

Uma década é um pacote! Um pacote de dez rolos de papel. Convidou dez anos e assim a década estará presente nas danças e contratempos.
O século - farolas helenopinhal.blogspot.com

Ano

O ano é longo, logo pode ser um rolo de papel inteirinho, ou uma estrada de duas faixas. Não! As estradas não têm fim! Convocou o rolo de papel, enrolado ou não, se falta não tem perdão.

 Meses

Os meses são doze. Não são todos iguais,  mas quando acaba um começa logo outro. E antes, já tinha lá estado outro. Janeiro, fevereiro e março, frios. Abril, maio e junho começa a aquecer. Em julho, agosto e setembro parece que nunca arrefece. Outubro o século faz anos. Novembro e dezembro é sempre a esfriar.
E decidiu. Um porta-lápis com material roído na ponta pela pressa do intervalo. Não interessa a cor, só o tamanho.
O século pôs-se de novo a pensar; já tinha os dez rolos de papel e o porta-lápis convidados, faltavam os dias que não dispensam as horas, os minutos e os segundos.
O século - farolas helenopinhal.blogspot.com
Procurou inspiração para representar os restantes convidados. É que o tempo é algo complicado. Todos os homens, quando são novos, o desprezam de tal forma que fingem que não existe, assim, o século justifica-se num suspiro de sabedoria:
- Eu, o século, vejo poucos homens aguentarem comigo quando passo por eles. Não o faço por mal, mas porque é assim!

Dias e horas

Os dias ficam um livro e as horas podem ser as folhas.

Minutos

O minuto é um berlinde, porque rola com tanta facilidade que nem o vejo.

Segundos

Ficaram a restar os segundos. O século pensou em muitas coisas pequeninas e descobriu o bagulho. Isso mesmo! Uma pequena semente de qualquer vida, depois de a lançar na terra dá sempre qualquer coisa, tal e qual o segundo.
Com tudo convidado o século começou a recapitular: Vejamos: O pacote com dez rolos que é a década e o porta-lápis que são os meses. Depois o livro do dia. E a seguir convidei...convidei... O que é que vem a seguir? Século que sou eu, décadas, anos, meses, dias, minutos e segundos. Já está! Mas eram seis! Dez rolos, doze lápis, um livro, o berlinde - que nunca me esquece - e o bagulho. Um, dois, três, quatro, cinco. Mas eram seis! Um, dois, três, quatro, cinco. Falta um! As folhas! É isso! As horas têm de ir!
O século - farolas helenopinhal.blogspot.com
Eu não fui a essa festa, porque não sou tempo, mas mesmo que fosse não via ninguém. Não via ninguém porque o tempo vê, embora esteja sempre muito bem enlaçado com o presente. Qualquer momento dessa festa é igual a este, ao anterior e ainda ao que virá a seguir.
O certo é que o tempo está todo aqui! Não sei se em festa ou não, mas neste preciso “bagulho” (segundo) que me lês, nem tu nem eu sabemos, quantos “berlindes” (minutos) vão rolar antes deste “livro”(dia) acabar.

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