sexta-feira, 3 de maio de 2019

Comenos XXI - Cabeleireiro - Comenos Helenísticos Heleno Pinhal 2003


É estranho quando se vive numa transição de gerações tão díspares. Sem querer ficamos atulhados em antinomias comportamentais.
Hoje, no cabeleireiro, reparei nas seis senhoras que, com perseverança, tentavam despertar o prazer da sua admiração nos outros.
Saí daquele antro de vaidade todo desgrenhado. Paguei para esfarraparem o meu cabelo. Faço-o sem más intenções, não é meu intuito ferir ninguém, mas está na moda e gosto de ser vanguardista.
Reparei como é agradável, no século XXI, esta liberalização tão ousada. Hodierno, uma mulher de família vai ao cabeleireiro, com os filhos na carteira para deleite do mundo e um anel reluzindo um curioso repelente masculino, para fazer todas aquelas coisas que apesar de singelas dão graça ao que é belo, mesmo que se mantenham as saias grossas em cintas subidas.
Eu aprovo, tenho é penha que não sejam mais arrojadas. Não deixo, no entanto, de rir baixinho ao reparar nesta drástica mudança de valores. Deixa-se de caluniar de "mulher pública" quem pinta unhas, cabelo e lábios e aceita-se após trinta anos a dar a comunhão em plena cerimónia religiosa. Compreendo esta atitude, a vida é mudança, mas porque veem só a mudança deles e não aceitam a dos outros?
Olham para o que digo, penso e faço e longe de perceberem o meu comportamento arranjam explicações dentro do seu mundo pequeno, mas considerado imenso.
Percebo que o façam, mas não admito que, à falta de abertura de alguém, me qualifiquem com a pouca bagagem têm atribuindo-me sabonete quando uso champô com um aroma ainda desconhecido.

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