quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Para sempre – Incompleto Organismo de Heleno Pinhal


Então não é que a morte, essa iníqua, de propósito estala os seus dedos e pum, arranca-me mais um semi-querido.
Para sempre, para o sempre de todo o sempre nunca mais sou agradavelmente importunado por tão singela companhia. Para sempre desapareceu essa minha parceria. Para o sempre de todo o sempre nunca mais me diz que quer aprender a tocar guitarra e comprar um computador. Não irei à sua aldeia conhecer os seus pais de oitenta anos e os nove irmãos. «Nove irmãos mas estão todos bem!» afirmou com orgulho de se orgulhar. E descreveu-me a situação de cada um com um brilho limpo de quem se acha afortunado. «Tu não tens vinte e um anos pois não?» Inquiri cravando-lhe os meus olhos nos dele, sem olheiras, puros e humildes até demais. «Tenho, tenho. Faço-os daqui a três dias, dia vinte e dois de Maio de dois mil e quatro.»
Foi nesse mesmo dia que os dedos da iníqua estalaram em cima da sua mota conseguida prematuramente.
23 maio de 2004-05-25 1:43 h, Covilhã, Café Rocket

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