quinta-feira, 27 de setembro de 2018

XIV. As coisas que não me aconteceram - Covilhã Viperina

Hoje foi hoje. Mas é que chamo mesmo hoje ao dia de hoje. Podia chamar-lhe o dia da dama filantropa, da lágrima obcecada, da lagoa pontiaguda ou até o dia da companhia polida. Mas não, chamo-lhe hoje.


Um idílio invisível perseguiu-me e só o vi ao meu lado, há pouco, quando procurava as chaves na entrada da várzea turbulenta onde vivo.

Foi mais ou menos assim: acordei a olhar a Cúpula Incandescente, subi e desci as calçadas íngremes muito quente. Durante essas deambulações sôfregas de novas emoções cresci. Cresci quando fotografei um idílio universal numa despedida insólita, quando cruzei com a Lágrima Fulgente e também cresci quando a Larva Iludida me roubou dez euros numa fuga psicológica enrolada.

Passadas duas horas, quando tristemente seguia instruções do ladrão, fui recolhido pelo Pólen Secreto que me deu a mão. Deu-me a mão e o que tinha à mão. O que me deu, falando precisamente num valor material, foram dez euros, o mesmo que a Larva Iludida me levou. Recebi também, do Pólen Secreto, mais um gosto de vida. Uma personagem que me passou despercebida por causa da minha falta de visão. Mostrou-me o seu veio de inteligência ao apresentar um pulso consistente nas suas falas, nas suas poses e nos seus olhos.

Eu ainda não fiquei por aqui. Acordei a minha larva responsável e fui recuperar o tempo perdido neste funil vivente. Bati à porta devagarinho, sem tempo de ver as horas. Podiam ser vinte, trinta ou simplesmente duas da manhã. Truz, truz, truz, suavemente. Quem é?

Entrei e recuperei o fio à meada da minha vida polida, mas o meu impulso laico continuava agora com a Síncope Terapêutica. Saí, passado uma hora, e estou aqui inteirinho como me levantei, mas sou outro, acreditem que sou outro! Agora que recordo a Cúpula Incandescente, a Lágrima Fulgente, o Pólen Secreto, a Síncope Terapêutica e até a Larva Iludida reparo que sou outro. Vá-se lá saber porquê! Esperem. Se eu não estivesse com a Cúpula Incandescente não teria encontrado a Lágrima Fulgente e, assim, nunca estaria sentado na esplanada para me cruzar com a Larva Iludida. E se eu não estivesse sentado feito parvo a tocar viola, para matar o tempo de espera, como conheceria o Pólen Secreto? E onde estão todos os outros? O Ponto Móvel, a Cunha Daltónica e o Inchaço Digital? Esses não os vi nem sequer sei se existem, mas convenço-me que andam para aí perdidos e que só nesta noite perdi perto de cem desses tentáculos humanos.

As coisas que não me aconteceram! Como é possível ter passado dez dias num e sentir que queria cem. As coisas que não me aconteceram! Passar um dia inteirinho sem sentir o abanar dos meus pelos e afirmar - as coisas que não me aconteceram. E aparentemente pareço um pupilo serôdio ao julgar assim, mas não me canso de pensar – as pessoas com quem não falei – é que assim reparo logo nas que falei e é por ter gostado tanto de estar com a Cúpula Incandescente, com a Lágrima Fulgente, com a Larva Iludida e com Pólen Secreto é que me lembrei do Ponto Móvel, da Cunha Daltónica e do Inchaço Digital, que aliás peço que se os virem por aí digam qualquer coisa. Eu moro na várzea turbulenta, já sabem, mas agora vou descansar para a minha planície nómada.



Heleno Pinhal, Hoje, 26 Maio 2003, 2:21:02

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