quinta-feira, 27 de setembro de 2018

VII. Rousseau reacendido - Covilhã Viperina

Pedem-me que interligue antigas ideias e as misture com as actuais opiniões para depois as lançar num papel que não arrebita nenhum olhar. Vocês estão enganados, enganados ao suporem que passaria horas a ler, esta ou aquela lente graduada, com tantas ideias novas em que pensar.

No meio desta geringonça bem-posta, ainda querem que apele à utilização de autores contaminados pela ignorância do tempo, para compactuar com o ram ram da gasta evolução. Estudar com afinco filósofos que consideram a mulher um bicho e veneram a escravatura? Não! Isto nada tem a ver com a época nem cultura, é uma questão de Ser, ser o que eles não eram.

Há dois meses nunca tinha ouvido falar deste Rousseau filósofo, deste Rousseau pedagogo, político, antropólogo, músico, botânico, ecologista, marginal, escritor e poeta. Eu, submisso, só posso sentir com agrado o pouco que abarca o meu entendimento, afinal é a capacidade de expelir tudo cá para fora que gera o contentamento. O que dignifica a educação contemporânea não é o dizer tudo, porque isso sempre acontece, o que dignifica a educação contemporânea é o poder dizer tudo, isso sim é que enriquece.

O ímpeto que sinto em certos momentos de aprendizagem é causado por um mau estar diagnosticado em observação própria, não apago nos olhos o incómodo que sinto no rosto porque aprendi a não ser indelicado e a nunca deixar feridas por tratar. Isto de ser franco não é nenhum travo infernal ao contrário do apregoado. Vá lá, olhem-me de frente mas com um olhar que deixe passar a luz, a verdadeira luz seja ela púrpura ou de leite.

Uma máscara bem tratada resolve sempre qualquer circunstância delicada mas depois não se cresce, fica-se insípido e nunca mais se recupera o agrado no coração dos outros, fica-se colado, aferrado somente a sons familiares que só se ouvem porque há um vínculo construído com artifício, um nato vínculo que liga todos esses disfarces mal feitos.

É difícil aceitar no ensino do século XXI a falta de confiança na evolução do Homem, então quem é que nos mantém aqui com todas estas mordomias e palavras de bom lazer? Portugal já não precisa de consciências incomodadas com o perder do mundo, agora é preciso acreditar, acreditar que os educadores participem em todas as corridas bem sucedidas e não ensinem a levantar os podres do mundo quando o que é preciso é um forte espírito de confiança. Depois, passados uns anos, andam para aí indivíduos a pintar tudo de negro quando são precisas tantas cores para pintar qualquer simples descoberta. E como se descobre o Homem sem acreditar nele, quem alguma vez se debruça num corpo moribundo sem a certeza de o salvar? Será que em todos estes anos, em milhares de culturas, não terá havido em centenas delas o desejo do homem natural, e será que em algumas dezenas ele não passou descontraído na rua a roer uma das suas maçãs? Haverá algum investigador às voltas com estes estranhos sentimentos que tantos homens têm? Nenhum!

Utopia, utopia é um pavilhão lisboeta no presente. Sim no presente, no presente do indicativo do verbo ser.

Sexta-feira, 14 de Novembro de 2003

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