sábado, 12 de janeiro de 2019

O Engodo da formação – Incompleto Organismo de Heleno Pinhal


Outono solarengo. Quinze horas e oito minutos. Sentada numa cadeira, com um ambiente de fazer notar todas as moscas de asas pouco oleadas, a professora nem se sente, embora se queira fazer ouvir. 
As vinte páginas de um livro traduzido para brasileiro servem de suporte para uma tarde que se avizinha problemática. A sua leitura enfraquece os catorze corpos em digestão permanente e como uma casa de sesta antiga, o silêncio entorpece os quinze estômagos cheios. Os sons das folhas dadas a ler no século XXI criam um egrégio ar que sacode toda a pedagogia circundante.
Leiam! Que os nossos olhos rolem pelas oitocentas linhas que a mestra nos pôs à frente. Assimilem o autor, narcotizem o espírito e sigam os trilhos do pastor.
O enfado continua. Refilo e a falta de bom senso manda-me calar, como se tivesse direito a tal. Se nada há a fazer, porque meneia os lábios para me contradizer?
A calma está entornada ao amordaçarem os meus movimentos cerebrais. Sigam! Sigam os trilhos do pastor para mais tarde demonstrar como se abre caminho nas encostas bravias da Serra da Estrela. Uma Serra cheia de necessidade de gentes desenvoltas que a levem em digressão por todo o lado, mesmo os mais pequenos.
Conhecem a sensação de seguir o caminho dos outros e depois percorrer a vida sentados?
Isto é que me afronta, ouvir alguém decretar e os outros a gostar de ouvir mandar. A isso chamo apatia, submissão e desejo de destruição. É claro que assim acalmam a democracia, é que tanto a plebe como os eruditos a decoram porque a todos estampa um sorriso. Uns sorriem porque mandam e os outros porque não acordam.
A voz ilustre levanta-se para que as ovelhas permaneçam sentadas no caminho trilhado com a argúcia do pastor.
26 de Outubro de 2004, Covilhã, 15:30:56 h.

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