sábado, 12 de janeiro de 2019

Mudança Envidraçada – Incompleto Organismo de Heleno Pinhal


O interior desfalece indiferente às casas construídas de novo e à Serra da Estrela coberta de branco. Neste café arejado, a ouvir música da época e o desporto do dia, sou contagiado pelo abanar das ancas das três pessoas que não ficam em casa por ordem da hora de jantar.
Por dentro o Universo roda noutro sentido. Ainda que tilintem em barítono, que pespeguem escopetas e encarapucem a tiracolo, não impedem estes dedos de escorregar, por entre largos campos de papel, como duas crianças a enxovalhar um balão que arisco percorre toda a sala empurrado pelos gritos que incomodam.
Os locais permanecem mas o ar que antes circulava neste campo de visão diluiu-se, no amplo espaço que agora constitui o meu território.
Preciso de novos enredos, humanos ou metálicos ou argumentados, sem perder este presente enguiçado que enlatado na mudança esgadelhada, escalavrada, fica pronto pelo ócio do excesso de horas na vida. Se não me modero corro o risco de me congelar e empoeirar o que já fiz.
Utilizando esta fuga à realidade, que nestas ruas me reportam para outras passagens, gostava de salientar que aceito a vida com algumas mudanças de humor. A outra forma antes conhecida era uma passagem demasiado larga para transmitir a sua entrada.
O sumo sai do fruto e a força empregue para a separação sai das minhas mãos birrentas açucaradas e coladas ao escorredor.
2006, fevereiro, 27, 20:29:32 h, Covilhã, Oriental, Carnaval.

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